quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Disparidade

No dia que os bons ficaram para trás a multidão fechou os olhos, e os ouvidos que quase não entravam em cena apareciam como fogos e faíscas perdidas no são joão. 
Todos estavam lá. Tão ou menos a parte do que realmente tinha acontecido. Todos corriam parados em mesmo, todos choravam risos fúnebres. E eu fui igual. Não reagi, ou apenas reagi o medo que tive de encontrar alguém conhecido por lá. Isso parece confuso mas na maioria dos acontecimentos desse país é melhor não encontrar alguém guardado em seu pupila, é melhor ter fracasso que vergonha alheia. 
Tão estática que fiquei só consegui olhar de soslaio para o meu lado esquerdo ao mesmo tempo que segurava minha cabeça com as duas mãos. Me atordoa saber que aquele dia não se dissipará tão facilmente, e digo isso porque o homem não tem a capacidade de aniquilar da memória fortes passagens como essa, mas pode amenizar em sua alma. Isso sempre acaba acontecendo com os que vão em diante. Num repente tudo é explosão. Como se Band of Brothers tivesse saído da tela de 21 polegadas comprada a uns três anos atrás. Como se o confronto da Palestina com os israelenses se expandisse além Jornal Nacional. Mas ainda era cedo para definir o que estava acontecendo. A terra não tremeu, nem isso fez com que parecesse artificial. O rádio que estava ligado desde ontem continuo tocando, só a geladeira que era tão antiga que não aguentou o blackout daquela tarde. Os vizinhos saíram primeiro. Ouvimos os gritos. Crianças principalmente. Naquela rua morava muitas crianças. Tinha até um primário perto de onde estávamos. Tudo estava em uma neblina, não dava para ver nada. Vimos fogo, vimos brasas. Em certa de 40 minutos os bombeiros estavam lá. A névoa saía de mansinho, olhamos, olhamos. Procurávamos uma explicação.
Não custou muito para Dave não vender mais os seus produtos. Alta periculosidade naqueles brinquedos. Aquela fábrica improvisada não teve jeito. O expulsamos de lá.

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